O jardim das cerejeiras

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Assisti a O jardim das cerejeiras, de Anton Tchekhov, comédia em 4 atos, encenada pelo Grupo TAPA, com direção de Eduardo Tolentino de Araújo, em cartaz no Teatro Aliança Francesa.

Espetáculo primoroso, tudo é perfeito: montagem fidelíssima ao texto do autor russo, figurinos, cenário, iluminação, direção e, é claro, o texto, uma obra-prima da dramaturgia. Não há como não se emocionar com o texto de Tchekhov, que, embora tenha sido escrito nos primeiros anos do século XX, é atualíssimo.

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A ação se inicia com o retorno à Rússia de Andrêievna Raniévskaia, Liuba,  depois de uma estada de cinco anos em Paris, para onde tinha ido após a morte do marido e de seu filho pequeno, que morreu afogado. Liuba chega de volta à Rússia em maio, época em que as cerejeiras estão em flor.

As coisas, no entanto, estão muito mudadas. A sociedade que ela encontra é muito diferente da que deixou. Agora ela encontra uma aristocracia decadente e endividada, atolada no passado e incapaz de perceber as mudanças por que passa a sociedade com a ascensão de camadas populares, servos que enriquecem no comércio. Liuba é o retrato dessa aristocracia.

Em Os jardins das cerejeiras, Tchekhov dá uma amostra perfeita da sociedade russa do começo do século XX. Todas os segmentos sociais estão ali representados: o mujique sem cultura que virou um comerciante endinheirado e que faz apologia do trabalho; a aristocracia empobrecida e ociosa que não percebe os novos tempos e, falida, tenta manter o status, gastando dinheiro que já não pode mais gastar, indo a restaurantes e promovendo bailes, sem que tenha dinheiro sequer para pagar aos músicos. O criado, ex-servo, que continua com a família de quem cuida com todo zelo e é incapaz de viver se não for para servir a família. A camponesa que é levada cedo para trabalhar como criada na cidade e não sabe mais viver como camponesa. O estudante com ideias progressistas, mas que nunca termina a faculdade; o proprietário endividado que vive pedindo dinheiro emprestado; as moças que esperam um bom casamento.

Para Liuba, a aristocrata falida e endividada, a única opção que resta é vender a propriedade para saldar as dívidas. Embora pressionada a vender o cerejal, ao qual está afetivamente apegada, Liuba não toma decisão alguma, vivendo numa passividade como se o tempo não passasse e nada mudasse. Vender a propriedade significa aceitar que os tempos são outros, que o tempo da aristocracia está se esvaindo, por isso Liuba aliena-se. Perder o cerejal é perder um passado que produzia frutos, sem que precisasse trabalhar.

Hoje, o cerejal, assim como a aristocracia, não produz mais nada. Mas Liuba se recusa a tomar consciência disso porque ela se vê como parte do cerejal (e da aristocracia, é claro). Respondendo a Petia, um estudante, diz: “Não consigo conceber a vida sem o cerejal e, se realmente for necessário que ele seja vendido, então é melhor que me vendam com ele”. O drama vivido, mas não compreendido integralmente por Liuba, é que não há mais como se segurar a esse passado. Quando o comerciante Lopakhin propõe a Liuba que venda o cerejal para que ali se construam casas de veranistas, ela lhe responde que casas de veranistas é coisa muito vulgar.

Liuba encontra uma sociedade que está em mudança, mas seu apego a um idealizado passado próspero, não lhe permite ver essas mudanças. Uma fala de Firs, o mordomo da casa de 87 anos, ex-servo que ainda trabalha para Liuba, e que acha que a emancipação foi uma calamidade, define essa sociedade que virou de ponta-cabeça: “Os mujiques sabiam qual era o seu lugar e os amos sabiam qual era o deles; mas agora está tudo de pernas para o ar, ninguém sabe mais de nada”.

O mordomo, durante o baile oferecido por Liuba, faz uma observação sagaz e vê o que Liuba (e a aristocracia) não consegue (ou não quer) ver: “Antigamente tínhamos generais, barões e almirantes dançando em nossos bailes e agora mandamos buscar um funcionário dos correios e o chefe da estação e nem eles têm muita vontade de vir”.

Os jardins das cerejeiras é um texto belíssimo, uma obra-prima. Tchekhov fala de transformações sociais e de como elas atuam sobre os indivíduos. Há o social, mas Tchekhov nunca deixa de olhar o humano de cada um de nós e faz isso com arte. Não é panfletário, é um artista e se vale da arte para transformar, sensibilizando. Seus personagens revelam o melhor e o pior de cada um de nós. O jardim das cerejeiras é uma obra transformadora. Obrigado, Anton Tcheckov.

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