Ironia: uma figura de retórica

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Neste artigo, trato de uma figura de linguagem chamada ironia. Antes, porém, de falar sobre a figura, esclareço que essa palavra provém do grego eirōneía,as no sentido de ‘ação de interrogar fingindo ignorância; dissimulação’, de eirōneúomai no sentido de ‘fazer-se de ignorante’.

A origem da palavra nos dá a pista para entender a figura. Dissimulação, perguntar algo fingindo que não sabe a resposta. Há, portanto, na ironia um jogo entre o ser e o parecer. O sujeito parece dizer algo quando, na verdade, diz outra. Na aparência se diz A, mas na essência diz B. Segundo o professor José Luiz Fiorin, em seu livro Figuras de retórica (Editora Contexto), a ironia “é utilizada para criar sentidos que vão do gracejo até o sarcasmo, passando pelo escárnio, pela zombaria, pelo desprezo, etc.”.

Se duas coisas são ditas ao mesmo tempo, na ironia há o que se pode chamar de bivocalidade; duas vozes se superpõem. Duas vozes que manifestam pontos de vista diferentes, um orientado positivamente; outro, negativamente. Perceber a ironia pressupõe identificar essas duas vozes, esses dois pontos de vista.

Veja a propósito esses versos da canção A rosa, de Chico Buarque.

A Rosa garante que é sempre minha
Quietinha, saiu pra comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do Norte
Que sorte
Que sorte, voltou toda sorridente

Para a personagem que fala em primeira pessoa, o marido (namorado) da Rosa, sair para comprar cigarro e voltar sorridente com umas coisas do Norte expressa um ponto de vista positivo em relação à Rosa. No entanto, outra voz se faz ouvir que mostra que a Rosa voltou sorridente por um motivo que não preciso dizer qual. E o marido (namorado) ainda acredita no que a Rosa diz que ela é sempre dele. É bom para por aqui. Se quiserem, cliquem aqui para ouvir a canção na íntegra.

Vamos chamar de enunciado aquilo que é dito e enunciação o ato de dizer. Todo enunciado (o dito) pressupõe uma enunciação (o dizer). Na ironia, diz-se uma coisa no enunciado e outra na enunciação. Na verdade, o que se diz no enunciado é o contrário do que se diz na enunciação. Não perceber a bivocalidade faz com que o leitor interprete o ponto de vista do autor em relação ao que fala como positivo quando na verdade é negativo (ou vice-versa). Aí é que mora o perigo.

Se o leitor faz uma leitura literal, atendo-se exclusivamente ao sentido expresso no enunciado, concluirá que o autor disse uma coisa quando na verdade está dizendo outra, o que acaba gerando um quiproquó, palavra que vem do latim (quid pro quo, uma coisa pela outra), cujo sentido é confusão. Nas redes sociais é comum pessoas agredirem-se verbalmente porque não percebem a ironia de uma postagem. Eu já fui vítima disso algumas vezes.

Vou colocar abaixo um texto como ilustração e comentá-lo.

Temos um texto sincrético, isto é, nele misturam-se duas linguagens. Num segmento, linguagem verbal: BOLSONARO 2018, verticalmente. No outro, linguagem não verbal: uma foto do roqueiro inglês Mick Jagger.

Trata-se de um texto que imita cartaz de propaganda política, usado em tempos de eleição para manifestar apoio a um candidato e/ou pedir votos a ele.

A ilustração faz referência no segmento verbal a Jair BOLSONARO, candidato a presidente da República na eleição de 2018. No segmento, não verbal a foto, no entanto, não é a de Bolsonaro, mas de Mick Jagger.

Para entender o texto, é preciso que o leitor disponha de um conhecimento prévio e que o ative na leitura. Que conhecimento é esse? Que Mick Jagger é um famoso pé-frio, expressão popular usada para designar pessoa que traz azar em jogo. Quando se vê o Mick Jagger num estádio torcendo para um clube, já se prevê que quem vencerá a partida é o adversário. Assim foi na Copa de 2014, em que o Brasil foi eliminado pela Alemanha no famoso 7 a 1. Na Copa deste ano na Rússia, Jagger torceu por seu país, a Inglaterra, na semifinal contra a Croácia, mas quem venceu a partida foi a Croácia, confirmando a fama de pé-frio do roqueiro.  Essa fama faz com que torcedores não queiram que Jagger torça para seus times.

Ao colocar a imagem de Jagger no cartaz, o autor recorre a fama de pé-frio do roqueiro para sinalizar que torce para que Bolsonaro não se eleja; pois, se Jagger torce para alguém, o esperado é que esse alguém perca e não ganhe.

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